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7 estúdios que a Microsoft comprou para matar

Victor Bianchin

24/09/2020 15h15

Arte: Control Freak / Allan Francisco

Se você não esteve em Marte nos últimos dias, então sabe que a notícia dos games mais importante foi a compra da Zenimax pela Microsoft pelo valor alucinante de US$ 7,5 bilhões. Com isso, a Microsoft agora é dona de Bethesda (Fallout e Elder Scrolls), id Software (Doom) e Arkane Studios (Dishonored, Deathloop), entre outros.

São agora 21 estúdios diferentes compondo o seleto (?) grupo de desenvolvedores comprados pelo conglomerado de Bill Gates. Do ponto de vista financeiro, ótimo negócio. Mas e para os fãs? Será que vai dar bom? Neste post, relembramos outros estúdios que a Microsoft comprou ao longo de sua existência e que acabaram levando a pior nessa história.

Antes que você acuse a gente de ser sonysta ou diga que este post "foi pago pela Sony", vale lembrar que, aqui no Control Freak, a gente distribui os cascudos igualmente. A Sony apareceu nas nossas listas de 11 péssimas decisões da indústria dos games e 10 defeitos de fabricação que marcaram a história dos consoles, entre outros.

Dito isso, vamos aos estúdios que a Microsoft comprou e destruiu.

1) Ensemble Studios

Reprodução / remember-ensemblestudios.com

JOGOS FAMOSOS: Age of Empires, Age of Mythology

Fundada em 1994, a Ensemble Studios se tornou gigante naquela década lançando Age of Empires e suas sequências. O jogo de estratégia em tempo real, que continua sendo um favorito de gamers mais velhos, foi decisivo para consolidar a ideia dos PCs como máquinas para jogar, em vez de apenas para trabalhar.

A Microsoft comprou a Ensemble em 2001 e, inicialmente, a manteve trabalhando em sua marca registrada (Age of Mythology saiu em 2002 e Age of Empires 3 em 2005). Porém, após o desenvolvimento de AoE 3, o estúdio começou a desenvolver um novo jogo de estratégia em tempo real. A Microsoft, desconfiada, disse que o jogo só poderia sair se ele fosse adaptado para se ambientar na franquia Halo. Nascia assim Halo Wars.

Essa ordem já foi uma complicação que atrasou o desenvolvimento do jogo em um ano. Para completar, em paralelo a Halo Wars, a equipe da Ensemble também foi encarregada de desenvolver um MMORPG de Halo que, inicialmente, tinha o codinome "Titan". Mas então, em 2009, a Microsoft resolveu cancelar Titan e fechar o estúdio sem mais nem menos. A equipe foi mantida por mais alguns meses para terminar Halo Wars e… só.

A justificativa da Microsoft no e-mail enviado aos demitidos era de que queria redirecionar recursos para "projetos mais escaláveis". Em um post no blog oficial do estúdio, o designer Bruce Shelley disse estar "chocado" com a decisão, uma vez que os jogos do Ensemble davam lucro.

Na visão de muitos fãs, o que a Microsoft fez foi afastar a Ensemble de sua maior vocação (fazer jogos de estratégia em tempo real), amarrá-la a uma franquia que nem era dela e depois descartá-la quando não precisou mais.

2) FASA Studios

Reprodução / infinitgamer.com

JOGOS FAMOSOS: MechWarrior, Mechassault

A FASA era uma empresa de jogos de tabuleiro que, em 1995, abriu uma divisão de games, a FASA Interactive. Os jogos eram quase todos focados em mechas, fossem eles de simulação e combate, shooters ou de estratégia em tempo real. Foi comprada pela Microsoft em 1999 e renomeada FASA Studios.

O fechamento rolou em 2007, apenas quatro meses após a empresa ter lançado um shooter chamado Shadowrun que vendeu bem, apesar de não agradar muito a crítica. Metade dos funcionários foi reposicionada e os demais foram demitidos.

Em 2009, o fundador da FASA, Jordan Weisman, deu uma entrevista em que não poupou críticas aos antigos chefes. "Quando a Microsoft comprou a FASA e a incorporou… as duas razões pelas quais eles nos compraram foram, primeiro, eles queriam o catálogo de propriedades intelectuais e, segundo, eles sentiram que nós havíamos criado uma cultura de desenvolvimento muito boa. E a realidade é que, desde o primeiro dia em que nos mudamos para Redmond [cidade americana onde fica a sede da Microsoft], aquela cultura de desenvolvimento foi destruída", contou ele.

3) Remedy Entertainment

Reprodução / Remedy Entertainment

JOGOS FAMOSOS: Alan Wake, Quantum Break

Após ganhar fama com a série Max Payne, este estúdio indie finlandês assinou um contrato para produzir jogos exclusivos para a Microsoft em 2006. Não foi uma compra, mas foi quase, pois o estúdio passaria os próximos 10 anos como refém da gigante. Desse acordo saíram dois games: o sucesso Alan Wake, de 2010, e Quantum Break, de 2016.

Embora Alan Wake tenha sido bem sucedido, as conversas com a Microsoft para uma sequência não foram. O projeto da Remedy para Alan Wake 2 era de um projeto multimídia em que o jogo sairia em capítulos e a história se entrelaçaria com os episódios de uma série de TV com o mesmo nome. A Microsoft adorou a ideia, mas queria ser dona da IP. A Remedy, como não queria abrir mão de Alan Wake, resolveu mudar a proposta.

O jogo virou Quantum Break e seu desenvolvimento foi turbulento devido ao fato de que a Microsoft desistiu de vender o Xbox One como uma marca que rodava projetos multimídia em vez de apenas jogos. A Remedy realmente queria levar a cabo a ideia de um jogo misturado com um seriado de televisão e, mesmo sem o apoio da Microsoft, conseguiu entregar esse conceito quando o jogo foi lançado. Só que Quantum Break acabou vendendo mal.

Em 2017, a Remedy se livrou do contrato de exclusividade. Em 2019, lançou o hit Control e ganhou de volta da Microsoft os direitos de publicação de Alan Wake.

Verdade seja dita, a Remedy nunca crucificou a Microsoft por causa da relação conturbada. O CEO Tero Virtala é sempre diplomático nas entrevistas. Mas ele disse isto pro Games Industry em 2018: "A gente sabe criar jogos excelentes, mas esse tipo de jogo que fazemos, com mundos imersivos e histórias memoráveis – esses são tipicamente os fundamentos (…) para franquias que podem viver por um longo tempo. E agora, pela segunda vez, estar em uma posição em que a gente fez todo esse trabalho de base e não temos a possibilidade de continuar a história… a gente não queria passar por isso de novo".

4) Rare

Reprodução / Rare

JOGOS FAMOSOS: GoldenEye 007, Banjo-Kazooie, Donkey Kong Country

O caso da Rare, também conhecida pelo autoapelido Rareware, é emblemático. A empresa britânica foi fundada em 1993 e, em 1994, a Nintendo comprou 49% de suas ações. Foi então que o estúdio viveu sua fase de ouro desenvolvendo jogos para os consoles da casa do Mario, incluindo Banjo-Kazooie, Perfect Dark e GoldenEye 007.

Foi também a época em que eles escondiam piroca em jogo de criança e todo mundo achava ótimo.

Em 2002, a Microsoft comprou a parte da Rare que pertencia à Nintendo com o objetivo de conseguir jogos de qualidade para seu novo console, o Xbox, lançado no ano anterior. Só que o estúdio logo percebeu que a parceria criativa com a Nintendo faria muita falta. "O tipo de apoio que a Nintendo oferecia não estava disponível na Microsoft porque ela não tinha experiência", contou o designer Justin Cook em uma entrevista ao Eurogamer em 2012.

Os jogos da Rare começaram a flopar em termos de crítica e público. Os times pequenos e bem conectados de antes haviam sido substituídos por equipes maiores, mais verticalizadas e com mais dinheiro. Jogos como Viva Piñata e Banjo-Kazooie: Nuts & Bolts não eram necessariamente ruins, mas não tinham o brilho e a ousadia dos tempos da Nintendo.

Um fato que pegou muito mal para os fãs foi que, durante a era do Xbox 360, a Rare deixou de trabalhar em seus próprios IPs para fazer apenas jogos de Kinect. Criou-se uma narrativa de que foi uma Microsoft tirânica que obrigou o estúdio a fazer isso. Isso já foi desmentido pela própria Rare, mas a má impressão ficou.

"A Rare era uma família entrosada, então foi meio que um choque de repente virar parte de uma organização gigante como a Microsoft", conta o desenvolvedor Phil Tossell ao Destructoid. "Houve um forte choque de cultura que talvez não ficou aparente no começo porque a Microsoft deixou a gente trabalhar como sempre havíamos feito. Mas, conforme o tempo passou (…), a cultura mudou e a sensação era mais de ser Microsoft do que Rare".

A Rare ainda está na ativa. Seu último jogo famoso foi Sea of Thieves, que nos deu o impagável incidente do macaco.

5) Lionhead Studios

Reprodução / Reddit

JOGOS FAMOSOS: Black & White, Fable

A foto acima, postada no Reddit, é do último dia de trabalho da equipe da Lionhead. O estúdio tinha duas franquias principais, Black & White (estratégia em tempo real) e Fable (RPG de ação). Em 2015, anunciou Fable Legends, um hack'n slash cooperativo que seria free-to-play e traria como atrativo o crossplay entre Xbox One e PCs.

A história da derrocada da Lionhead é a história da derrocada de Fable Legends. A Microsoft havia comprado a Lionhead em 2006 (salvando o estúdio de uma dívida gigantesca) e, até esse momento, a parceria havia sido boa para os dois lados. Mas, com Fable Legends, a história mudou.

Primeiro, havia o fato de que a Lionhead nunca havia feito um jogo free-to-play e no estilo jogo-como-serviço, e isso se traduziu em dificuldades para a equipe. Segundo, havia o fato de que o jogo estava sendo desenvolvido com a Unreal Engine 4, um motor que era constantemente atualizado – e, a cada nova atualização, havia novos bugs. Terceiro, o jogo originalmente era só para Xbox – a decisão da Microsoft de incluir a opção de crossplay no meio do desenvolvimento foi uma gigante dor de cabeça.

Peter Molyneux, presidente da Lionhead Studios, apresenta o "Project Natal" na E3 2009 (Kevork Djansezian/Getty Images)

Quatro anos de trabalho e US$ 75 milhões de orçamento depois (lembre-se que este era um jogo que seria gratuito), a Microsoft decidiu puxar o projeto da tomada. O jogo foi cancelado em março de 2016 e, seis semanas depois, o estúdio foi fechado, colocando 100 funcionários na rua.

"A maior punhalada no peito foi que, por seis anos, o estúdio tinha sido encarregado de desenvolver jogos que a Microsoft queria usar apenas para demonstrar tecnologia. Pouquíssima gente queria fazer Fable: The Journey e quase ninguém queria trabalhar em Fable Legends", disse uma fonte anônima ao Eurogamer.

6) Press Play

Max & The Magic Marker é um dos jogos mais bem-sucedidos da Press Play (Divulgação)

JOGOS FAMOSOS: Max & The Magic Maker

Quando foi comprada pela Microsoft em 2012, a Press Play tinha apenas dois jogos em seu currículo. Após a compra, o estúdio lançou mais três títulos e foi isso.

O fechamento foi anunciado pela Microsoft em 2016, junto com o da Lionhead. A empresa não deu muitas justificativas, preferindo emitir comunicados genéricos para a imprensa. "Essas mudanças não foram decididas com leveza, mas são tomadas conforme continuamos a avaliar como todos os jogos em nosso portfolio se encaixam na nossa visão a longo prazo para fazer do Xbox e do Windows 10 os melhores lugares para jogar", dizia um deles.

Pelo menos os fundadores criaram outro estúdio, o Lightbulb, que você vê na foto abaixo.

Integrantes do estúdio Flashbulb, com desenvolvedores que fizeram parte da Press Play (Divulgação/Lightbulb)

7) Darkside Games

Divulgação / Yager

JOGOS FAMOSOS:

Este aqui é um caso excepcional, pois a Microsoft nunca comprou a Darkside. Mesmo assim, ela usou esse pessoal, cuspiu e jogou fora.

A Darkside era um estúdio especializado em outsourcing, ou seja, em criar recursos para outros estúdios utilizarem em seus jogos. A imagem acima, por exemplo, é do modo multiplayer de Spec Ops: The Line, que a Darkside criou para a Yager. No entanto, a equipe tinha a ambição de conquistar algo maior, trabalhando em um título próprio que mostrasse ao mercado do que ela era capaz.

Em 2014, a Darkside fechou um acordo de US$ 5 milhões com a Microsoft para criar uma nova versão de Phantom Dust, um jogo de estratégia em tempo real lançado para o primeiro Xbox em 2004. Só que o caldo logo começou a entornar: menos de uma semana depois, a Microsoft ordenou que a Darkside incluísse no jogo um modo single player, sendo que o acordo inicial era apenas que o jogo fosse multiplayer. Nenhuma verba extra veio junto com esse pedido.

Pior: na E3 de 2014, a Microsoft resolveu anunciar o remake de Phantom Dust sem consultar a Darkside e utilizando um trailer no qual o estúdio não havia trabalhado. Além do prazo curto e da verba limitada, a Darkside agora tinha que lidar com a pressão dos fãs e com a expectativa em relação a um trailer que mostrava coisas que não estavam no jogo.

Em janeiro de 2015, a Darkside entregou uma demo do jogo à Microsoft com a expectativa de que a empresa se empolgasse e topasse um pedido de aumento no budget do jogo. Foi em vão: em fevereiro, a Microsoft cancelou o projeto, obrigando a Darkside a fechar e colocar seus 50 funcionários na rua.

A Microsoft, pleníssima, contratou outro estúdio e lançou um remaster de Phantom Dust para o Xbox One em 2017.

E aí, você acha que, com os títulos da Zenimax, a história vai ser diferente? Conte aí nos comentários!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Victor Bianchin é jornalista, já foi editor da revista Mundo Estranho e escreveu um almanaque de games. Ele tem um Rush de estimação e considera a técnica do button mashing algo subestimado.

Sobre o Blog

Em Control Freak você vai ficar por dentro das curiosidades, bizarrices e polêmicas saudáveis do universo dos games.