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Jogando no ventilador: 6 vezes em que as empresas de games foram expostas

Victor Bianchin

27/07/2020 15h00

Empresas de games fazendo idiotices e se dando mal por causa disso são um assunto recorrente neste blog. Que culpa a gente tem se elas vivem fazendo merda?

Mas a coisa fica pior ainda quando vem alguém e expõe o fiasco inteiro para todo mundo ver. E que atire a primeira pedra quem não gosta de ver o circo pegando fogo.

Confira alguns dos piores (ou melhores, se você está do lado que tem pipoca) casos de exposição pública.

1) Criador do Minecraft dá um sacode na Microsoft no Twitter

Lá em 2013, quando a Microsoft estava promovendo a aberração que era o Windows 8, um dos criadores de Minecraft, Markus Notch, foi contatado pela empresa para fazer com que o jogo fosse mais adaptado ao Windows 8.

Deixa a gente explicar rapidinho o que esse pedido realmente significava: o Windows 8 foi pensado para rodar em dispositivos com toque, o que gerou muitas críticas entre os usuário de desktop, já que a chamada "interface Metro" era incômoda não só para jogar, mas também para fazer tarefas banais.

E a Microsoft estava pedindo para Notch que Minecraft rodasse suave nessa porcaria. Que pedido adorável, não?

Notch respondeu a solicitação sendo curto e grosso no Twitter:

"Recebi um e-mail da Microsoft querendo ajuda para "certificar" Minecraft para o Windows 8. Disse a eles para pararem de arruinar o PC como plataforma para jogos. Eu prefiro que Minecraft não rode no Windows 8 de jeito nenhum do que colaborar com isso. Talvez assim a gente consiga convencer algumas pessoas a não trocarem pro Windows 8…"

A rejeição ao Windows 8 foi tanta que a Microsoft simplesmente pulou o 9 e foi direto para o Windows 10 em 2015.

2) Ex-funcionária da Nintendo expõe empresa após ser demitida por causa de trolls

 

A história da demissão de Alison Rapp em 2016 é bastante complexa e não cabe inteira aqui. Então, se você quiser se informar de verdade sobre o caso, sugerimos uma pesquisa minuciosa no Google. Mas a gente faz um resumão.

Alison trabalhava numa equipe de marketing e tradução da Nintendo americana em 2016, quando a companhia lançou dois jogos, incluindo Fire Emblem: Fates e Xenoblade Chronicles X. O problema começou quando as adaptações desses jogos removeram alguns elementos das versões originais, como uma cena de "conversão gay" em Fire Emblem e a opção de escolher o tamanho dos peitos de uma personagem em Xenoblade.

Alison, que era uma feminista ativa nas redes sociais, virou alvo de ódio de fãs revoltados com a mudança, que passaram a assediá-la e ofendê-la na internet. A Nintendo demitiu a funcionária alegando que havia descoberto que ela tinha dois empregos e que isso não era permitido. Mas o motivo real todo mundo sabia: a casa do Mario queria distância de polêmica.

(Se você quiser nossa opinião, a gente acha bem escroto para uma empresa bilionária lavar as mãos e deixar que uma funcionária vire bode expiatório de fãs raivosos, mas hey, cada um no seu quadrado.)

Embora tenha mantido a serenidade no começo, Alison acabou usando o Twitter para desabafar. Os tweets foram deletados e a conta hoje está desativada, mas o site MXDWN salvou os prints. Neles, ela revela que a Nintendo a proibiu de falar sobre cultura do estupro no Twitter e também de fazer streams (mas os colegas podiam).

Alison diz ainda que o segundo emprego (o termo em inglês para ter um emprego paralelo ao principal é "moonlighting") não era proibido, e que ela usava um nome falso nesse trabalho para evitar associações. Segundo ela, porém, a polêmica com os trolls da internet fez com que a empresa cavasse fundo em sua privacidade para achar um motivo para demiti-la.

3) Apresentadores de prêmio fazem piada com a Blizzard pelo fiasco de Warcraft 3: Reforged

A Blizzard foi alvo de críticas neste ano devido ao lançamento de Warcraft 3: Reforged, um remake que fez bingo na cartela de coisas-que-um-remake-não-deveria-ter, incluindo bugs e conteúdo cortado. A empresa chegou até mesmo a ser acusada de propaganda enganosa e os pedidos de desculpa não foram bem recebidos pela comunidade.

Em fevereiro deste ano, durante a 23a edição do D.I.C.E. Awards, uma premiação tradicional do setor, os apresentadores Jessica Chobot e Greg Miller resolveram fazer piada com a situação (a partir de 4:40 no vídeo abaixo).

"Telling Lies está indicado hoje, você já jogou Telling Lies?", perguntou Jessica. "É claro", respondeu Miller, ao que Jessica disparou: "é sobre a Blizzard lançando Warcraft 3: Reforged".

A audiência reagiu com surpresa, ao que Jessica aproveitou para dar outro murro: "desculpem, não consigo ouvir vocês por causa do barulho da Blizzard censurando todo mundo". Essa fala sobre censura, é claro, é uma alusão ao polêmico episódio envolvendo um jogador de Hearthstone no ano passado.

4) Colaboradores da NetherRealm expõem o crunch absurdo da empresa

Se quiséssemos, poderíamos fazer este post apenas sobre histórias de crunch e colocar uns 20 casos diferentes. Infelizmente, é uma prática padrão na indústria, especialmente entre as companhias de grande porte.

Em vez de falar de todos, porém, vamos focar no da NetherRealm, que foi exposta pelos próprios colaboradores nas redes sociais e não pela imprensa, como geralmente acontece.

Tudo aconteceu em abril de 2019, logo após a Epic Games ser exposta pelo crunch a que submeteu seus funcionários no desenvolvimento de Fortnite. O assunto começou a viralizar nas redes sociais e ex-funcionários e colaboradores da NetherRealm (Mortal Kombat, Injustice) começaram a compartilhar suas dores.

As informações mais impressionantes vieram de James Longstreet, engenheiro de software, que fez uma gigante thread sobre os horrores que viveu na empresa.

"Já faz 8 anos e eles deixaram claro pra mim que sou persona non grata por lá, então dane-se: trabalhar na NetherRealm no Mortal Kombat 9 quase me matou. Eu não dormi mais de 4 horas por noite por meses. De janeiro a abril de 2011 eu estava no trabalho mais do que metade do tempo".

A artista conceitual Becca Hallstedt aproveitou a onda do amigo e também tweetou. Ela desativou a conta, mas os prints estão preservados graças ao fórum ResetEra.

"Eu e a maioria dos outros autônomos, alguns deles os mais talentosos trabalhadores nível júnior que a indústria dos games tem a oferecer, recebíamos US$ 12 por hora para trabalhar num jogo AAA. Isso se você não fosse uma mulher como eu, porque a gente recebia US$ 11 por hora."

"Os temporários trabalham num ciclo de 9 meses ativos e 3 meses inativos com zero benefícios e salário quase mínimo, tudo isso com a mensagem de que 'talvez você seja contratado depois do próximo trabalho'. Algumas pessoas estão fazendo isso há 4 anos. Algumas pessoas acumularam enormes dívidas de cartão de crédito por causa disso."

5) Ex-funcionário desce o pau na suposta utopia da Valve

Em 2018, o desenvolvedor Richard Geldreich fez uma longa série de tweets em sua conta pessoal com dicas, recomendações e aprendizados a partir de sua experiência no mercado de programação.

Vários dos tweets faziam menção a uma "empresa auto-organizante" e, em um deles, ele se refere a "essa empresa de Bellevue". Tratam-se de claras referências à Valve, empresa que adotou um modelo organizacional sem chefes e é sediada na cidade de Bellevue, em Washington.

O "Manual Para Novos Funcionários" da empresa, vazado em 2012, descrevia o sistema organizacional da empresa como uma utopia onde "ninguém se reporta a ninguém". Os funcionários poderiam participar de qualquer projeto e não precisariam se submeter a decisões arbitrárias de chefia.

Muito bonito no papel, não é mesmo? Mas os tweets de Geldreich revelaram os horrores por trás dessa fachada.

"Empresas chamadas de auto-organizantes possuem um braço corporativo em algum lugar controlando toda a operação 'de cima'. Encontre essas pessoas e os amigos delas para entender quem possui o poder real".

"O que você vai descobrir é que esse braço corporativo influencia, controla e ativa 'picos de ansiedade' o braço auto-organizante quase constantemente. Não é auto-organização, é uma empresa com gerentes ocultos e que é controlada por meio de ansiedade em massa e medo."

"Em empresas auto-organizantes que pagam bônus, os trabalhadores irão ficar atentos para rivalidades entre outros colegas para poder explorá-las. Eles irão se unir com um desenvolvedor para colocar o outro (que não gostam) para baixo de alguma forma. (Eu vi isso várias vezes)."

"Em um time competitivo dentro de uma empresa auto-organizante, evite pedir ajuda a não ser que você realmente precise. Qualquer informação que você receba pode ser propositadamente distorcida de alguma forma. Se você pedir ajuda, consulte vários desenvolvedores e estabeleça um consenso."

No total, Geldreich fez mais de 70 tweets sobre o assunto. Como ele não organizou seus posts em uma thread, juntaram tudo num post lá do Reddit (em inglês).

6) Após falência, Telltale não paga rescisões dos funcionários mas anuncia jogo novo

O caso da Telltale Games é bem conhecido: em 2012, o estúdio havia ascendido ao estrelado com The Walking Dead: A Telltale Series, e se tornado o novo queridinho da indústria. Logo viriam contratos para produzir jogos de franquias como Batman, Game of Thrones e Guardiões da Galáxia. Tudo parecia estar dando certo.

Até que, em 2018, a companhia surpreendeu o mercado ao anunciar que, devido a falta de dinheiro, estava demitindo 90% de seus funcionários e mantendo o resto apenas para terminar os contratos que faltavam. Os funcionários foram demitidos sem aviso, sem pagamento de rescisão e tiveram apenas 30 minutos para deixar o prédio.

E aí eles foram pra onde? Pro Twitter, claro:

"Eu fui demitido da Telltale. Nenhuma das minhas noites sem dormir ou as longas horas nos fins de semana tentando finalizar um jogo dentro do prazo serviram para eu ganhar rescisão hoje. Não trabalhem horas extras se vocês não forem pagos por isso, pessoal. Protejam sua saúde. Empresas não ligam para você."

"Para esclarecer algumas questões que estão perguntando (e tenham em mente que eu não sou uma porta-voz da empresa)
– Cerca de 250 pessoas estão desempregadas, não 225
– Não recebemos nenhum tipo de pagamento de rescisão
– Nosso plano de saúde só dura mais uma semana
– Muitos dos demitidos eram autônomos e não podem receber seguro-desemprego"

Mas o pior talvez seja o que aconteceu poucos dias depois. A Telltale foi às redes sociais anunciar que "múltiplos parceiros potenciais" haviam se apresentado para ajudar a empresa a completar a temporada final de The Walking Dead.

A notícia foi recebida com incredulidade pela comunidade, que pediu para que a empresa usasse o novo capital para pagar seus funcionários. Ou, como uma das demitidas resumiu muito bem:

"As ações da empresa reforçavam que, se o seu conteúdo ia mal em uma avaliação, mesmo que você tivesse feito exatamente o que havia sido pedido, você era afastado do projeto, substituído ou até demitido. Você não era qualidade. Qualidade estava no DNA deles."

"Agora, quando todos nós perdemos nossos empregos e a Telltale está falando de terminar os projetos sem a gente, depois de não nos pagar a rescisão… eu percebo que eles fizeram os fãs acreditarem também. Que era na Telltale onde estava a qualidade, e não nos desenvolvedores que realmente faziam os jogos."

É isso aí, pessoal, não existe almoço grátis e nem empresa boazinha. Nem mesmo no mundo dos games…

Sobre o Autor

Victor Bianchin é jornalista, já foi editor da revista Mundo Estranho e escreveu um almanaque de games. Ele tem um Rush de estimação e considera a técnica do button mashing algo subestimado.

Sobre o Blog

Em Control Freak você vai ficar por dentro das curiosidades, bizarrices e polêmicas saudáveis do universo dos games.