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Drogas, estupro e política: 9 games que já foram banidos um dia

Victor Bianchin

10/02/2020 08h00

O motivo mais clássico para o banimento completo de um jogo em algum país é a quantidade de violência. Algum político desavisado fica sabendo de um jogo com armas e morte, faz aquela associação clichê entre violência virtual e violência real e mete a canetada. O tempo passa, a polêmica acalma e o jogo geralmente é liberado após algumas adaptações. Até que o ciclo se repita novamente.

Mas nem sempre é assim. Alguns casos trazem particularidades bem interessantes. Reunimos nesta lista os 9 casos de games proibidos mais interessantes da história dos jogos eletrônicos.

1) Fallout 3

Banido em: Austrália
Motivo: Drogas

Vamos começar pela Austrália porque o caso deles é bem específico.

Até 2013, o sistema de classificação para games na Austrália só ia até os jogos "apropriados para 15 anos ou mais". Se o jogo só fosse adequado para maiores de 16, por exemplo, a Australian Classification Board simplesmente se recusava a classificar o jogo e ele era automaticamente banido por lá.

Sim, esse sistema arcaico durou até 2013. DOIS MIL E TREZE.

Entre as polêmicas causadas, talvez a de Fallout 3, em 2008, tenha sido a mais memorável devido ao alto hype criado para o jogo. Fallout 3 foi banido porque era possível usar morfina no jogo para fazer seu personagem ignorar a dor muscular. Uma justificativa meio esfarrapada e que a ACB não aplicava a outros jogos, o que serviu para demonstrar que seus critérios não eram objetivos.

Entre os games banidos ao longo dos anos estiveram: Fallout 3, Saints Row IV, State of Decay, Left For Dead 2, GTA: San Andreas, Mortal Kombat e Outlast, entre vários outros. A maioria conseguiu reverter seus banimentos fazendo adaptações mínimas.

Mas a visão conservadora sobre a validade de jogos adultos permanece. Em 2019, por exemplo, a lista de banidos incluiu DayZ, We Happy Few e Hotline Miami.

2) RapeLay

Banido em: EUA e outros
Motivo: Representação de estupro

Este game provavelmente leva qualquer troféu de "não tem como defender" porque a premissa é absurda: você controla um predador sexual e seu objetivo é encontrar e estuprar uma mãe e suas duas filhas.

Essencialmente, RapeLay tenta ser um hentai interativo bem mais do que tenta ser um videogame (a visão é em primeira pessoa e você assedia as personagens usando o mouse). Não que faça diferença.

O jogo foi desenvolvido por um estúdio japonês e lançado em 2006. Em 2009, gerou polêmica nos EUA e chegou a atrair a atenção de políticos, o que levou ao seu banimento por lá. Foi essa controvérsia no Ocidente que causou constrangimento à indústria japonesa, levando a uma revisão de regras autorregulatórias da indústria que proibiu jogos de estupro no país a partir de junho de 2009.

Outros países em que o jogo foi banido incluem Tailândia, Reino Unido e Austrália.

3) Manhunt 2

Banido em: Reino Unido e outros
Motivo: Violência

Este jogo de horror da Rockstar (a mesma de Red Dead Redemption) foi tema de um artigo do The Guardian com o título "Sádico, brutal e desolador: censores banem Manhunt 2". Não era pra menos: Manhunt 2 é um jogo extremamente gore e violento em que você precisa matar seus inimigos da forma mais cruel possível para obter os melhores rankings de performance.

A polêmica começou no Reino Unido quando a BBFC (Diretoria Britânica de Classificação de Filmes) recusou fazer uma classificação indicativa para o game devido à violência. A Rockstar se pronunciou dizendo que o jogo merecia pelo menos uma classificação +18.

Após muita briga judicial e alterações no game para atenuar a violência, Manhunt 2 foi lançado no Reino Unido. Mas continuou banido em países como Alemanha, Irlanda, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Malásia.

4) Duke Nukem 3D

Banido em: Brasil
Motivo: Associação de videogames a crimes violentos

No ano de 1999, um estudante de Medicina levou uma submetralhadora ao Shopping Morumbi, em São Paulo, entrou numa sessão de Clube da Luta e, após 15 minutos de filme, começou a atirar no público. Três pessoas morreram e oito ficaram feridas.

Esse crime escabroso teve uma repercussão gigante em todo o país. Uma das consequências foi a decisão da juíza da 3ª Vara da Justiça Federal em Belo Horizonte, Cláudia Guimarães, que proibiu a comercialização e a distribuição de seis games considerados "violentos": Duke Nukem 3D, Mortal Kombat, Blood, Requiem, Postal e Doom.

A associação entre os games e o crime foi feita porque o criminoso era fã de jogos eletrônicos. Duke Nukem 3D era o favorito dele.

Segundo a juíza, a comercialização desses jogos feria o artigo 227 da Constituição, que afirma "ser dever do Estado colocar crianças e adolescentes a salvo da violência".

O banimento foi suspenso em outubro de 2001, quando entrou em vigor uma nova portaria do Ministério da Justiça estabelecendo a obrigatoriedade da classificação indicativa para os jogos de videogame.

5) Postal 2

Banido em: Nova Zelândia
Motivo: Racismo, homofobia, sexismo e uso degradante de urina

Geralmente, quando um jogo é banido, o veto cai alguns anos depois. Não é o caso de Postal 2, no entanto, que tem uma relação de puro ódio com a Nova Zelândia.

O game lançado em 2003 passou um ano sendo investigado pelo OFLC (Escritório de Classificação de Filmes e Literatura), órgão do país responsável pela classificação de produtos controversos. Decidiu-se pelo banimento em 2004.

Desde então, apenas possuir uma cópia de Postal 2 rende a você uma multa de 2 mil dólares neozelandeses. Se você vender, distribuir ou exibir o jogo em algum lugar, são 20 mil dólares. E uma distribuição em massa renderia 50 mil dólares de multa.

O relatório que pedia a proibição do jogo dizia que "o jogo possui um senso de humor racista, sexista e homofóbico grosseiro em sua representação de homossexuais, asiáticos, islâmicos militantes, conservadores e outros". Mas gostamos bastante é dessa parte aqui: "o jogo promove e apoia o uso de urina em associação com uma conduta degradante e desumanizadora porque o jogador pode escolher usar a função de urinar à vontade".

E o banimento permanece até hoje. Se for pra Nova Zelândia, já sabe: não leve sua cópia de Postal 2!

6) Battlefield 3

Banido em: Irã
Motivo: Representação inadequada do país

A campanha single-player do jogo da Electronic Arts retrata tropas americanas atacando milícias hostis em Teerã, capital do Irã, perto da fronteira com o Iraque.

O governo iraniano não gostou nadinha da história de um game popular mostrar o país como uma zona de guerra hostil e baniu o game. Segundo a versão libanesa do jornal The Daily Star, a polícia chegou a revistar lojas e prender comerciantes que estavam vendendo Battlefield 3 escondido.

O que é mais curioso ainda é que Battlefield 3 nunca esteve oficialmente disponível no Irã, já que a EA não tinha distribuidores no país – todas as cópias disponíveis por lá eram piratas.

7) Pokémon

Banido em: Arábia Saudita
Motivo: Promoção de jogos de azar e da teoria da evolução de Charles Darwin

Já falamos neste blog sobre a censura a Pokémon na Arábia Saudita no post sobre histórias dos bastidores de Pokémon.

Em 2001, o Secretariado Geral do Conselho de Estudiosos Islâmicos da Arábia Saudita emitiu um fatwa (sentença religiosa) contra toda a franquia Pokémon. Embora o alvo principal fosse o jogo de cartas colecionáveis, devido à ideia de que ele promovia jogos de azar, a proibição também afetou os games – principalmente porque o modo como os monstros evoluem lembra a teoria da evolução de Charles Darwin, a qual o Islã rejeita.

Assim como acontece com muitas coisas na vida, a proibição oficial não foi o suficiente para fazer Pokémon sumir. Os jogos foram lentamente retornando às lojas conforme os anos passaram. Em 2016, no entanto, o sucesso de Pokémon Go! fez o fatwa ser reforçado.

8) Football Manager 2005

Banido em: China
Motivo: Representação de Hong Kong e do Tibete como países soberanos

"O que poderia haver de tão ofensivo em um simples jogo de administração de times de futebol?", você pergunta. Ora, meu querido, é óbvio: mexeu com política chinesa, mexeu no vespeiro.

Mas calma que, desta vez, não estamos falando das presepadas da Blizzard.

O que aconteceu foi que o jogo representava Taipei (capital de Taiwan), a cidade de Hong Kong e o Tibete como países independentes e, portanto, soberanos. Na vida real, as duas primeiras são regiões administrativas especiais da China e o Tibete é uma província controlada pela China.

Embora o jogo não tivesse distribuição oficial no país (ou seja, as cópias eram todas piratas), o Ministro da Cultura lançou um comunicado dizendo que Football Manager 2005 "apresenta perigo à soberania e à integridade territorial do país" e baniu o jogo.

E mais: o Ministro emitiu ordens para que órgãos governamentais trabalhassem para "investigar, confiscar e punir sites, lojas de software e cybercafés que disseminem ou vendam Football Manager 2005". Estabelecimentos que não tomassem medidas para impedir que os clientes baixassem o jogo, por exemplo, poderiam ser multados e até perderem suas licenças. Uau!

9) EA Sports MMA

Banido em: Dinamarca
Motivo: Tinha propaganda de energético

Em 2007, a França, a Noruega e a Dinamarca se uniram para proteger a juventude de bebidas com altos níveis de cafeína e de açúcar e proibiram a veiculação de propagandas esses produtos. A Dinamarca era a mais radical dos três países, proibindo não só a propaganda, como também os produtos em si.

O jogo EA Sports MMA, de 2010, que era uma adaptação das lutas do UFC, só que sem o licenciamento da marca UFC (pausa para a gente dar risada: hahahahahaha), foi banido na Dinamarca porque tinha propagandas de energéticos.

O pior é que a EA se recusou a adaptar o jogo para o mercado dinamarquês. "Nosso jogo recria autenticamente o esporte MMA em cada um de seus aspectos, incluindo patrocínios de bebidas energéticas dentro do jogo nos shorts dos lutadores, em equipamentos e nas arenas".

Parece uma justificativa extremamente cara-de-pau? Parece. Mas a EA provavelmente preferiu ser vista como cara-de-pau do que continuar trabalhando num game que flopou feio.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Victor Bianchin é jornalista, já foi editor da revista Mundo Estranho e escreveu um almanaque de games. Ele tem um Rush de estimação e considera a técnica do button mashing algo subestimado.

Sobre o Blog

Em Control Freak você vai ficar por dentro das curiosidades, bizarrices e polêmicas saudáveis do universo dos games.