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Suástica, tecno e censura: 10 incríveis histórias dos bastidores de Pokémon

Victor Bianchin

14/11/2019 04h00

A espera finalmente está chegando ao fim: Pokémon Sword e Shield chegam às lojas nesta sexta-feira, dia 15.

Para comemorar essa data tão aguardada em que o Farfetch'd finalmente vai servir para alguma coisa, relembramos algumas histórias de bastidores que pouca gente sabe.

Parte do conteúdo e das imagens deste post veio dos sites Helix Chamber e Lava Cut Content. Vale a pena visitar se você quiser saber mais sobre a história do desenvolvimento de Pokémon.

Bora?

1) No início, cada pokémon teria uma função na sociedade humana

A foto acima retrata alguns dos 37 monstrinhos da primeiríssima leva de pokémons, que foi criada entre 1989 e 1991. Vários bichos foram alterados (olha esse Ivysaur!) e alguns eliminados completamente.

Essa leva foi usada para vender a ideia do jogo à Nintendo na época em que ele ainda se chamava Capsule Monsters.

Os desenhos dessa leva tinham muita influência das obras que os criadores gostavam, como Ultraseven, Dragon Quest e Earthbound.

E, seguindo uma linha muito tradicional em RPGs, a ideia inicial era de que os pokémon vivessem em sociedade com os humanos e colaborassem em atividades do cotidiano.

Diz o chefe de design Ken Sugimori: "Os primeiros pokémon foram Rhydon, Clefairy e Lapras. No início, nós havíamos planejado ter pokémon vivendo junto com os humanos, tornando mais fácil a vida deles. Então, nos primeiros estágios de desenvolvimento, muitos dos personagens que nós inventamos tinham papéis definidos, como carregar coisas ou viajar pelos mares com pessoas nas costas. Nós também pensamos em personagens fofinhos no estilo pet, como a Clefairy."

2) Os americanos acharam que uma carta de TCG tinha uma suástica

Em 1999, o Japão recebeu a sétima expansão do jogo de cartas de Pokémon (Pokémon Trading Card Game, ou TCG), que possuía o título de Gym Challenge. Entre as cartas dessa expansão estava uma chamada Koga's Ninja Tricks, que tinha a imagem de um Golbat.

Essa carta logo virou um problema. Ela continha, em sua ilustração, o símbolo de "manji", que serve para indicar templos budistas em mapas e representa boa sorte, entre outras coisas. O manji também tem um formato que se assemelha a uma suástica invertida.

No Japão, onde o símbolo existe desde muitos séculos antes do surgimento do nazismo, isso não foi um problema. Mas colecionadores americanos começaram a importar a carta e o manji virou problema para a Nintendo na América do Norte.

A Nintendo americana acabou se desculpando pela carta e se comprometeu a parar de produzi-la.

Em outra notícia sobre Pokémon no Terceiro Reich, a pose original do Registeel em Pokémon Diamond e Pearl foi alterada nas versões europeias, e depois em Platinum, porque ele parecia estar fazendo a saudação nazista.

3) E os muçulmanos proibiram Pokémon porque é blasfemo

Em 2001, o Secretariado Geral do Conselho de Estudiosos Islâmicos da Arábia Saudita emitiu um fatwa (sentença religiosa) contra o jogo de cartas de Pokémon. O ato foi provocado pelo fato de que as mutações das criaturas promoveriam a teoria da evolução.

O fatwa também foi motivado porque os Estudiosos confundiram o símbolo de "energia" das cartas com uma Estrela de Davi e interpretaram que isso era uma promoção do Estado de Israel. Veja a comparação na imagem abaixo.

Risos.

Em 2016, o fatwa foi renovado por ocasião da febre de Pokémon Go!.

4) O par de jogos de cada geração geralmente tem um mais bugado que o outro porque os testadores têm favoritos na hora de jogar

Em uma entrevista para a Game Informer, o produtor de Sword e Shield, Junichi Masuda, declarou o seguinte: "Quando nós estamos testando os jogos internamente antes de realmente iniciarmos o processo formal de debug, as pessoas têm seus favoritos para cada versão. Por exemplo, para Let's Go, Pikachu! e Eevee!, boa parte do time preferia Eevee e ficava jogando ele, e essa versão foi a que ficou mais polida e melhor. Para a versão Pikachu, nós tivemos que compensar o tempo perdido depois".

Apesar de os dois jogos de cada versão terem tempo igual dedicado a eles na fase de debug, as preferências do time ainda podem surtir efeito, segundo Masuda. "Definitivamente há um favoritismo interno que pode criar desigualdades", admitiu o produtor.

5) Quatro anos de trabalho nos primeiros jogos quase foram perdidos porque os computadores pifaram

A primeira geração de Pokémon foi desenvolvida em computadores do tipo Sun SPARCstation 1, essa máquina moderníssima da foto acima, lançada em 1989.

Esses PCs costumavam bugar bastante. Quatro anos após os jogos começarem a ser desenvolvidos, houve uma falha generalizada e eles pifaram de vez. TODO o conteúdo desenvolvido até o momento estava ali – se os dados não pudessem ser recuperados, o jogo já era.

O produtor Junichi Masuda conta que saiu desesperado procurando uma forma de recuperar os arquivos. Ele pesquisou em fóruns, pedindo ajuda de estranhos, e leu livros em inglês para tentar descobrir uma forma de fazer o resgate.

"Nós acabamos descobrindo uma forma de recuperar, mas foi o momento mais nervoso do desenvolvimento", disse ele numa entrevista.

6) Alguns pokémons são criados apenas para preencher lacunas de determinados tipos

Em uma entrevista em 2011, o designer chefe Ken Sugimori disse que é comum que os pokémons mudem de tipo na fase final de desenvolvimento, e também que alguns monstros sejam encomendados para suprir uma falta de determinado(s) tipo(s).

Por exemplo: Ferroseed e Ferrothorn, da geração V, foram encomendados, pois havia a necessidade de uma espécie com a dualidade Grama/Aço. Já Frillish e Jellicent, originalmente, seriam apenas do tipo Água, mas acabaram incorporando o tipo Fantasma antes do lançamento, o que desagradou a designer que modelou os bichos.

7) Os primeiros games foram feitos ao som de tecno pesado

Os primeiros games de Pokémon, Red e Green (o Blue só veio depois), foram feitos com apenas dois programadores. Por isso, era comum que os dois trabalhassem madrugada adentro aprimorando o código dos jogos.

"Eu lembro que nós dois gostávamos muito de música tecno na época", disse um deles, Junichi Masuda, ao Polygon. "Então a gente ficava trabalhando até tarde da noite, só nós dois, e a gente colocava música tecno pesada – fazia parecer que era uma boate ou algo assim. A gente ficava programando até tarde da noite fazendo isso, então são memórias muito boas", disse ele.

8) Samurott foi criado numa viagem ao zoológico

Quando a equipe estava inventando os designs dos pokémon iniciais da geração V, foi determinado que o aquático seria uma lontra. Só que isso gerou um problema: como criar um Pokémon lontra que evoluísse para algo que não parecesse apenas outra lontra, só que maior e bípede?

Preso nesse conflito criativo, Yusuke Ohmura, chefe de design de Sun e Moon, resolveu fazer uma visita ao zoológico para ver as lontras. E calhou de haver um leão marinho por perto.

"Quando eu vi o quão poderosos eram os leões marinhos quando eles se movem, eu pensei 'eles parecem tão fortes!'", disse Ohmura numa entrevista em 2011. "E foi assim que eu criei o conceito do Samurott, que então conectei com o Oshawott. Mas foi o design do Samurott que veio para mim primeiro".

9) Já houve um gene ligado ao câncer chamado "pokémon"

Em 2005, um geneticista do Centro do Câncer de Nova York descobriu o gene POK ontogênico eritroide mieloide, um gene ligado à progressão de vários tipos de câncer. O cientista então resolveu batizar sua descoberta de "gene Pokémon".

Os advogados da Nintendo não precisaram nem esperar ele terminar de pronunciar "câncer" pra chegarem com o processinho. A ideia de associar os monstrinhos felizes a algo tão terrível como câncer não caiu muito bem para a gigante japonesa. Mas associar Pokémon a trabalho escravo e abuso de animais, aí tá limpeza.

Como a zuera é a última que morre, há artigos científicos citando o gene Pokémon ainda em 2019.

10) Cogitou-se fazer pokémon "bombados" para a versão americana

O falecido presidente da Nintendo, Satoru Iwata, revelou numa entrevista que, quando Pokémon estava sendo preparado para o lançamento no Ocidente, o time de localização fez um alerta à empresa: monstrinhos fofinhos como aqueles não fariam sucesso no mercado americano. A solução, segundo eles, seria criar monstros fortes e bombados para a versão gringa.

Felizmente, Hiroshi Yamauchi, presidente da Nintendo na época, rejeitou a ideia e decidiu apostar nos monstrinhos do jeito que eles eram. O resultado, como a gente sabe, foi um sucesso arrebatador.

Mas, se os pokémons bombados tivessem realmente acontecido, o meme do "monstro saindo da jaula" ganharia todo um novo sentido no Brasil. Birl!

Sobre o Autor

Victor Bianchin é jornalista, já foi editor da revista Mundo Estranho e escreveu um almanaque de games. Ele tem um Rush de estimação e considera a técnica do button mashing algo subestimado.

Sobre o Blog

Em Control Freak você vai ficar por dentro das curiosidades, bizarrices e polêmicas saudáveis do universo dos games.

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