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6 personagens de games que viraram símbolos políticos

Victor Bianchin

06/11/2019 09h07

Mais ou menos uns 20 anos atrás, quando você ainda precisava de discador para acessar a internet e o Bate-Papo Uol era a coisa mais legal da web, a palavra "globalização" era a maior novidade nas salas de ensino fundamental e médio do país.

"Globalização" era essa ideia fantástica de que a internet derrubaria as barreiras entre os países e faria o mundo todo se unir como uma civilização só.

Corta pra hoje, quando ainda estamos muito, mas MUITO distantes de sermos um planeta unido e harmonioso, e dá para ver que a globalização só funcionou nas trocas culturais e de comunicação mesmo. Fora isso, é tiro, porrada e bomba.

No que diz respeito a este blog, a parte mais interessante disso tudo é ver personagens de videogame sendo usados em protestos por aí. Confira nossa lista dos mais interessantes.

1) Boicote à Blizzard transforma personagem chinesa de Overwatch em símbolo

Nós já falamos dos protestos contra a Blizzard neste blog. Em resumo: durante uma transmissão que cobria um campeonato de Hearthstone, um competidor se posicionou a favor dos protestos que estão acontecendo em Hong Kong. A região é controlada pela China e os protestantes desejam mais autonomia e democracia. A resposta da Blizzard à manifestação foi cancelar um prêmio em dinheiro do competidor, que se chama Chung "Blitzchung" NgWai, e bani-lo por um ano das competições.

É claro que a coisa toda pegou muito mal para o estúdio, especialmente porque a comunidade entendeu o ato como censura e se colocou a favor de Blitzchung. Desde então, protestos e campanhas de boicote têm acontecido na internet e no mundo real. A Blizzcon, que rolou nesse último fim de semana, foi marcada por essa tensão.

Uma das medidas encontradas pelos gamers para protestar foi criar memes com Mei, uma personagem chinesa de Overwatch, outro jogo da Blizzard. Mei não é, em si, uma personagem de traços rebeldes, mas as artes criadas pelos protestantes a retratam usando as cores da bandeira de Hong Kong ou vestindo símbolos do movimento pró-democracia, como guarda-chuvas amarelos e máscaras de gás.

A hashtag #MeiWithHongKong do Twitter permite ver várias dessas artes. E não é só nas redes sociais: as artes de protesto com Mei também aparecem no Reddit, em fóruns como o r/HongKong e o r/Blizzard.

Embora a Blizzard esteja tentando remendar sua situação após a chuva de críticas a suas atitudes, é fato que o conflito em Hong Kong está longe de acabar e que Mei já se tornou um símbolo contra a censura e a opressão.

2) Sonic vira meme anti-fascista devido a fã ativista

Em agosto de 2017, um senador dos EUA chamado Richard Blumenthal divulgou uma foto em seu Twitter (reproduzida acima) em que aparecia falando ao público durante uma marcha pela paz em reação aos eventos de Charlotsville no mesmo mês.

O que aconteceu em Charlotsville foi bem grave: grupos de supremacia branca se juntaram para se manifestar e grupos anti-racistas se juntaram para apresentar oposição a esse discurso. Houve conflitos violentos, vandalismo e pelo menos uma morte. Os noticiários chamaram os eventos de "terrorismo doméstico".

Na foto de Blumenthal, é possível ver um civil vestindo um chapéu do Sonic e uma camiseta com os dizeres: "Sonic diz não ao fascismo e ao racismo".

A internet adorou a manifestação e logo descobriu a identidade do sujeito: Ben Aech, um fã entusiasmado que usa memes do Sonic por causas nobres, como o combate ao racismo e a luta pelos direitos de minorias.

Ben, cuja conta no Twitter é "SonictheAntifa", chegou a dizer na rede que "Sonic sempre resistiu a regimes totalitários".

Se você parar pra pensar, o Dr. Eggman é um vilão sedento por poder que transforma criaturas inocentes em escravos robóticos. Sonic sai por aí libertando todas elas e acabando com essa política opressiva.

3) Ubisoft acidentalmente cria imagem de apoio a Hong Kong com campanha de Watch Dogs

No dia 13 de junho deste ano, a página de Facebook da Ubisoft voltada ao Sul da Ásia postou uma imagem promocional do jogo Watch Dogs: Legion, o terceiro da saga. Os print screens mostrados acima são do fórum Resetera.

A imagem mostrava cinco personagens com rostos obstruídos por máscaras andando na rua e segurando guarda-chuvas em meio a vários outros civis com guarda-chuvas (afinal, está chovendo na cena).

"Podemos não nos conhecer e nunca termos nos encontrado. Mas temos o mesmo objetivo e nos levantamos aqui" dizia o texto que acompanhava a imagem.

Legion se passa em Londres, mas muita gente na Ásia interpretou que a imagem fazia alusão aos protestos em Hong Kong que estão rolando este ano. Lá, os guarda-chuvas são usados pelos manifestantes para se proteger contra gás lacrimogênio, sprays de pimenta e jatos de água. Por causa disso, o objeto acabou se tornando, também, um símbolo.

A Ubisoft, corajosa pra caramba, se apressou em dizer que era tudo um mal-entendido. "Um post promovendo Watch Dogs: Legion, nosso mais recente videogame fictício, que se passa em Londres e foi anunciado na E3, foi compartilhado recentemente e pode ter sido mal interpretado devido à nossa omissão em dizer que a locação é Londres. Essa nunca foi nossa intenção e nós pedimos desculpas pela confusão", dizia o comunicado da empresa.

A Ubisoft e a Blizzard correndo atrás de dinheiro chinês, as duas a 80 km/h, quem chega mais rápido?

4) Movimento gamer feminista de Seul adota personagem de Overwatch como mascote

No dia 21 de janeiro de 2017, a Marcha de Mulheres de Seul, na Coreia do Sul, teve entre suas manifestantes uma bandeira bem diferente, que mostrava um coelhinho branco com cara de bravo sobre um círculo rosa. A imagem abaixo é de 2016, dois meses antes dessa manifestação, mas já com a respectiva bandeira.

Reconheceu? Trata-se da mesma imagem que aparece no peito do uniforme de D.Va, personagem de Overwatch.

As imagens da bandeira rapidamente rodaram o mundo. O grupo responsável foi identificado como o National D.Va Association, uma agremiação de mulheres gamers baseada em Seul que tem o objetivo de empoderar outras jogadoras e obter igualdade de gêneros nesse meio. Elas também luta pelos direitos dos LGBTQ.

Um dos propósitos iniciais do National D.Va Association era protestar contra a ex-presidente Park Geun Hye. Depois que ela sofreu impeachment, as jogadoras decidiram não se dispersar e manter o grupo ativo.

A decisão de usar o coelho de D.Va como símbolo, obviamente, não foi por acaso. "A razão de a D.Va se tornar nossa mascote foi porque nós pensamos que, num país sexista como o nosso, seria impossível para uma pessoa como ela existir", disse ao Polygon uma integrante do grupo identificada apenas como Nine.

No contexto de Overwatch, Hana "D.Va" Song é uma sul-coreana que joga Starcraft profissionalmente.

Desde 2017, o National D.Va Association parece ter sido agregado por outro grupo feminista, o FAMERZ. Veja as ações delas no Twitter e no Tumblr.

5) Pac-Man é usado para ironizar austeridade na Europa

Em muitos países da Europa, o Dia do Trabalho (chamado por lá de "May Day" ou "Fiestas de Mayo") é marcado por protestos e passeatas.

Em 2013, manifestantes em Barcelona se fantasiaram como o personagem Pac-Man e também como os fantasmas do jogo durante uma passeata. Eles ainda usavam máscaras com os rostos da chanceler alemã Angela Merkel e do então primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy.

O motivo das fantasias era protestar contras as medidas de austeridade dos governos europeus, que estariam minando o poder de compra dos consumidores – da mesma forma que o Pac-Man devora os inimigos.

Na época, a Espanha estava em recessão e a taxa de desemprego chegava a 27%.

6) Caçadas de Pokémon Go! são código secreto para protestos em Hong Kong

E, mais uma vez, falamos de Hong Kong.

Com a agitação política que tomou conta da região em 2019, ficou perigoso usar as redes sociais para organizar protestos – afinal, o governo está sempre monitorando a internet.

Os protestantes, então, resolveram ficar criativos. Um dos modos secretos de organizar os levantes é marcar encontros para capturar pokémons em Pokémon Go!. Segundo a BBC, mapas sinalizando encontros de caçada de Pokémon Go! são distribuídos via redes de Wi-Fi e usados para indicar, na verdade, onde protestos irão acontecer.

Outros disfarces para os protestos são "grupos de leitura da Bíblia" e "passeios históricos". Segundo relatos da imprensa, até o Tinder está sendo usado para marcar reuniões.

Vale lembrar que o Pikachu é um símbolo político em Hong Kong desde 2016. Naquele ano, o lançamento de Sun e Moon marcou a primeira vez em que os jogos de Pokémon foram lançados oficialmente na China continental, que deixou de proibir consoles de videogame em 2014.

Por conta desse novo mercado que se abria, a Nintendo decidiu mudar a forma como o nome do Pikachu era grafado em toda a China, o que, por consequência, mudava também a pronúncia. O objetivo era tornar o nome mais adaptado ao mandarim, língua falada na China continental.

Para os habitantes de Hong Kong, porém, que falam cantonês, a nova pronúncia foi considerada uma afronta cultural. Desde então, o Pikachu costuma aparecer em protestos por lá.

Sobre o Autor

Victor Bianchin é jornalista, já foi editor da revista Mundo Estranho e escreveu um almanaque de games. Ele tem um Rush de estimação e considera a técnica do button mashing algo subestimado.

Sobre o Blog

Em Control Freak você vai ficar por dentro das curiosidades, bizarrices e polêmicas saudáveis do universo dos games.

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